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Água deionizada: o que é, graus de pureza, onde é obrigatória e como se produz

Água deionizada se mede em microsiemens: de 10 no uso geral a 0,055 na ultrapura, e cada grau custa mais.

Por · · 6 min de leitura
Béquer com água deionizada segurado por mão com luva azul em laboratório

Béquer com água deionizada segurado por mão com luva azul em laboratório

Em um laboratório de análises clínicas, o técnico repete a calibração do equipamento pela terceira vez e o resultado continua fora. O reagente é novo, o aparelho está em dia, e o problema é a água usada para diluir: veio de um galão de água mineral. Bastou trocar por água deionizada para a curva fechar. O episódio se repete em farmácia de manipulação, oficina que enche bateria e indústria de cosméticos, porque cada íon dissolvido interfere numa reação, mancha uma peça ou desregula um sensor. A deionização da água existe para retirar esses íons até um nível que o processo tolere.

Água deionizada é a água da qual os sais dissolvidos foram removidos por troca iônica, sem fervura nem membrana. Este texto explica como o processo funciona, quais são os graus de pureza, em que ela difere da destilada e da osmose, onde é usada, como é produzida em escala industrial e o que muda no custo.

O que a troca iônica retira

Todo sal dissolvido na água se separa em íons: o cloreto de sódio vira sódio com carga positiva e cloreto com carga negativa, o carbonato de cálcio vira cálcio e carbonato. A deionizada é a que passou por resinas que capturam esses íons e devolvem, no lugar deles, hidrogênio e hidroxila, que se combinam e formam água pura.

O resultado é uma água com condutividade elétrica muito baixa, porque são os íons que conduzem corrente. A água de torneira fica entre 100 e 500 microsiemens por centímetro; a deionizada de uso geral fica sob 10, e a de laboratório sob 1.

Ela não é estéril nem livre de compostos orgânicos: só os íons foram retirados. Para uso que exige ausência de microrganismos, entra uma etapa de ultravioleta ou filtração fina depois.

Graus de pureza da água deionizada e quem usa cada um

A tabela mostra os graus mais comuns, a condutividade típica e os usos em que cada um entra.

GrauCondutividade típicaUsos
Uso geralDe 1 a 10 µS/cmBateria automotiva, radiador, ferro a vapor, autoclave, lavagem de vidraria
Uso industrialAbaixo de 1 µS/cmCaldeira de alta pressão, cosméticos, galvanoplastia, enxágue de peças
Laboratório tipo IICerca de 1 µS/cmPreparo de reagentes, análises clínicas, meios de cultura
Laboratório tipo I ou ultrapura0,055 µS/cm, resistividade de 18,2 MΩ·cmCromatografia, biologia molecular, semicondutores
FarmacêuticoConforme a farmacopeiaÁgua purificada para manipulação e produção de medicamentos

Quanto menor a condutividade exigida, mais etapas o sistema tem e mais caro fica o litro.

Como a deionização é feita, passo a passo

O processo industrial segue uma ordem fixa, e cada etapa protege a seguinte.

  1. Pré-filtração de sedimentos e carvão ativado, para retirar partículas e cloro que degradariam as resinas.
  2. Osmose reversa, quando a água bruta tem muitos sais, para reduzir a carga que chega às resinas e alongar a vida útil delas.
  3. Coluna catiônica, com resina que troca cálcio, magnésio, sódio e outros cátions por hidrogênio.
  4. Coluna aniônica, com resina que troca cloreto, sulfato, nitrato, sílica e outros ânions por hidroxila.
  5. Leito misto de polimento, com as duas resinas juntas, para chegar à condutividade final exigida.
  6. Monitoramento contínuo por condutivímetro na saída, que avisa quando a resina saturou e precisa de regeneração ou troca.

Resina regenerável, cartucho descartável e eletrodeionização

Em consumo alto, as colunas são regeneradas no local com ácido e soda, que devolvem hidrogênio e hidroxila às resinas. Exige área, produtos químicos e neutralização do efluente da regeneração.

Em consumo baixo, usam-se cartuchos de resina de leito misto que são trocados quando saturam e regenerados pelo fornecedor. É a opção comum em laboratório, farmácia e oficina.

A eletrodeionização combina resina e membranas com corrente elétrica, regenera as resinas de forma contínua e dispensa produtos químicos. Entra depois da osmose reversa em plantas farmacêuticas e de semicondutores.

Deionizada, destilada e osmose: a diferença que importa

A água destilada é produzida por evaporação e condensação, retira sais e também microrganismos, mas consome muita energia e produz pouco volume por hora. Serve para pequenos consumos.

A osmose reversa retira de 95% a 99% dos sais pela membrana, mas o que resta ainda conduz corrente, em geral entre 5 e 30 microsiemens. Para muitos processos ela basta; para laboratório e galvanoplastia, não.

A deionização retira os íons remanescentes e chega à condutividade mais baixa das três, com custo menor que a destilação. É por isso que osmose seguida de deionização virou o arranjo padrão em escala industrial.

Onde ela é obrigatória

Na galvanoplastia e na pintura eletrostática, o enxágue final com água comum deixa manchas de sal na peça seca. Na indústria de cosméticos e na farmácia de manipulação, íons alteram a estabilidade de emulsões e a farmacopeia exige água purificada. Em bateria de chumbo, o sal acelera a sulfatação das placas.

Em caldeira de pressão elevada, a sílica que passa pela osmose só sai na coluna aniônica, e é ela que protege a turbina. No laboratório, cada reagente diluído com água errada gera resultado errado.

Nesses usos, a conta de uma água ruim aparece como retrabalho, peça perdida ou análise repetida.

Custo, manutenção e o que observar na compra

O custo por litro depende do grau exigido e do volume. Sistemas de cartucho custam pouco na instalação e mais na operação, porque a troca é frequente. Colunas regeneráveis custam mais no início e menos por litro em consumo alto. A osmose antes das resinas reduz a frequência de regeneração e costuma se pagar rápido.

Na compra, o que importa é a condutividade garantida na saída, a capacidade em litros entre regenerações, o consumo de produtos químicos e o monitoramento incluído.

Deionizada estocada absorve gás carbônico do ar e perde pureza em horas, e por isso o sistema produz próximo ao ponto de uso.

Perguntas frequentes sobre água deionizada

Ela pode ser bebida?

Não é indicada. Sem minerais, ela tem gosto insípido e não traz benefício. O padrão de potabilidade prevê minerais na água de consumo.

É o mesmo que destilada?

Não. A destilada é feita por evaporação e a deionizada por troca iônica. As duas têm poucos sais, mas a deionizada pode conter orgânicos e microrganismos que a destilação removeria.

Serve para bateria de carro?

Serve, e é a indicada. Sais da água comum aceleram o desgaste das placas.

Quanto tempo dura a resina?

Depende da carga de sais da água de entrada e do volume produzido. Com osmose antes, a regeneração ou a troca fica muito mais espaçada.

Como saber se a água está deionizada?

Pelo condutivímetro. Água comum marca centenas de microsiemens; a deionizada marca abaixo de 10, e a de laboratório abaixo de 1.

Precisa de osmose reversa antes?

Em água com muitos sais, sim, para não saturar as resinas em pouco tempo. Em água de baixa salinidade e consumo pequeno, o cartucho sozinho atende.

Resumo

Água deionizada é a água que passou por resinas de troca iônica e perdeu os sais dissolvidos, chegando a condutividades que vão de 10 microsiemens no uso geral a 0,055 na ultrapura. Ela é produzida por colunas catiônica e aniônica, leito misto ou eletrodeionização, quase sempre depois de osmose reversa, e é obrigatória em laboratório, galvanoplastia, cosméticos, farmácia, baterias e caldeiras de alta pressão. Difere da destilada pelo processo e da osmose pelo grau de pureza, e o custo por litro cresce com a pureza exigida.

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