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Saúde

Sarampo pode "apagar" memória do sistema imunológico

Estudos de Harvard mostram que o vírus elimina parte dos anticorpos já formados contra outras doenças, fenômeno batizado de amnésia imunológica

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Sarampo pode "apagar" memória do sistema imunológico

Pesquisadores da Universidade Harvard identificaram que o sarampo pode destruir entre 11% e 73% dos anticorpos que uma pessoa já havia produzido contra outras doenças ao longo da vida. O achado, publicado na revista Science, ajuda a explicar por que crianças que tiveram sarampo costumam apresentar mais infecções nos meses seguintes, mesmo depois de recuperadas.

O fenômeno recebeu o nome de amnésia imunológica. Um segundo estudo, divulgado na Science Immunology, complementa a descoberta ao mostrar que as alterações no repertório de células B de memória, responsáveis por reconhecer microrganismos já enfrentados pelo corpo, podem durar bastante tempo após a infecção.

Para explicar o mecanismo, a bióloga Patrícia Rosa Vanderborght, responsável pela imunização humana no Richet Medicina e Diagnóstico, da Rede D'Or, recorre a uma comparação. Segundo ela, o sistema imunológico funciona como uma biblioteca que guarda registros de todas as infecções já enfrentadas pelo organismo. O sarampo, nesse sentido, apagaria páginas inteiras de alguns desses registros.

"Amnésia imunológica é a perda de parte da imunidade adquirida, que pode acontecer após uma infecção pelo vírus do sarampo. Guardamos memórias de microrganismos que já encontramos e conseguimos produzir anticorpos novamente quando somos expostos a eles. O vírus do sarampo pode atingir células importantes para essa memória e reduzir parte desse repertório", afirma a bióloga, em entrevista ao jornal O Tempo.

Como o sarampo se manifesta no corpo

Causada por um vírus transmitido pelo ar, a doença provoca febre alta, manchas vermelhas pelo corpo, conjuntivite, coriza, mal-estar e tosse seca. A evolução costuma seguir quatro fases.

  • Incubação: dura entre dez e 15 dias, sem sintomas aparentes
  • Fase catarral: de dois a quatro dias, com febre alta, tosse, coriza e pequenas manchas brancas na boca, conhecidas como manchas de Koplik
  • Fase exantemática: de quatro a seis dias, quando surgem as manchas vermelhas, que começam no rosto e atrás da orelha e se espalham pelo corpo
  • Convalescença: período de recuperação, marcado por descamação da pele

O paradoxo da proteção que sobra e da memória que se perde

Segundo a médica Jessica Fernandes Ramos, membro da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI) e integrante do Núcleo de Infectologia do Hospital Sírio-Libanês, a recuperação aparente após o sarampo pode enganar. Os exames de sangue voltam a mostrar quantidade normal de células de defesa, mas isso não significa que a proteção contra outras doenças tenha sido restaurada.

"Depois que a pessoa melhora do sarampo, o número de células de defesa até pode voltar ao normal relativamente rápido, mas isso não significa que a biblioteca voltou a ter todos os livros", disse Ramos ao O Tempo.

A médica descreve o fenômeno como um paradoxo: o organismo produz novas células de defesa, mas boa parte delas reconhece apenas o vírus do sarampo, e não os demais microrganismos que a pessoa já havia enfrentado antes da infecção. Assim, ao mesmo tempo em que a imunidade contra o sarampo fica reforçada, a proteção contra outras doenças enfraquece.

Efeito também atinge adultos, mas faltam dados

Ramos afirma que a amnésia imunológica não é restrita a crianças. Adultos também possuem células de memória vulneráveis ao mesmo mecanismo de ataque do vírus. Ainda não existem, porém, números precisos sobre a intensidade e a duração do efeito nessa faixa etária.

Parte do conhecimento disponível hoje sobre adultos vem de estudos com gestantes que contraíram sarampo e apresentaram queda nos níveis de anticorpos. Um protocolo de pesquisa internacional já em andamento no continente africano busca investigar especificamente esse grupo.

Casos crescem em SP, EUA e Europa

O aumento recente de casos de sarampo nos Estados Unidos, na Europa e no estado de São Paulo pode acelerar a produção de dados sobre o tema. Segundo a reportagem do O Tempo, é possível que informações de surtos locais, incluindo estatísticas brasileiras, cheguem antes mesmo da conclusão do estudo africano.

Até o dia 19 de agosto de 2026, São Paulo registrava 23 casos confirmados da doença no ano: 20 na capital, dois em São Bernardo do Campo, no ABC paulista, e um em Guarulhos, na região metropolitana. Os números foram informados pelas autoridades de saúde do estado, segundo o veículo.

O que fazer com essa informação

A vacinação continua sendo, segundo especialistas consultados pela reportagem, a principal forma de evitar tanto o sarampo quanto seus efeitos colaterais sobre o sistema imunológico. No Brasil, a vacina contra a doença está disponível gratuitamente na rede pública, geralmente combinada à proteção contra caxumba e rubéola.

Ainda não há confirmação de quantos casos de amnésia imunológica foram identificados formalmente em pacientes brasileiros, nem estudo local que meça a extensão do fenômeno na população do país. Diante do aumento de casos em São Paulo, a orientação de médicos e infectologistas é verificar a carteira de vacinação, especialmente de crianças pequenas e de adultos que não têm certeza sobre as doses recebidas ao longo da vida.

Fontes consultadas

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