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A antiga ordem de Bali e suas curiosidades intrigantes

Nos anos 1970, a ilha de Bali, na Indonésia, passou por mudanças rápidas. O turismo aumentou nas praias do sul, trazendo muitos jovens viajantes de países como América…

Nos anos 1970, a ilha de Bali, na Indonésia, passou por mudanças rápidas. O turismo aumentou nas praias do sul, trazendo muitos jovens viajantes de países como América do Norte, Europa e Austrália. Essa nova visitação gerou aumento do padrão de vida dos balineses, mas também causou consequências.

Para atender à crescente demanda por arroz, o governo implementou um programa chamado Bimbingan Massal, ou “Orientação Maciça”, visando modernizar a agricultura local. O projeto incentivava o uso de técnicas agrícolas ocidentais, com pacotes de tecnologia que incluíam sementes de arroz de alto rendimento, fertilizantes e pesticidas. Essa abordagem fazia parte da Revolução Verde, que buscava elevar a produção de alimentos globalmente.

Bali já tinha uma tradição forte de cultivo de arroz, com um sistema de irrigação adaptado ao seu terreno montanhoso. O arroz é uma planta semi-aquática, e há cerca de 6.000 anos, os humanos descobriram que a submersão das lavouras por algumas semanas ajudava a afastar as ervas daninhas. Assim, as autoridades acharam que as novas técnicas poderiam aumentar ainda mais a produção.

A partir de 1970, o governo incentivou os agricultores balineses a utilizar a nova tecnologia e plantar arroz o mais rápido possível. Nos primeiros anos, ocorreram aumentos na produção, mas não tão expressivos quanto esperado. Contudo, na metade da década, começou a surgir uma série de problemas. Infestações de insetos atacaram as lavouras e a irrigação falhou em algumas áreas, algo incomum nas conhecidas e verdejantes terraces de arroz.

Nesse cenário complicado, um jovem antropólogo americano chegou à ilha e se deparou com a realidade em crise. Ele começou a investigar a fundo a situação e, com o auxílio de tecnologia moderna, fez descobertas sobre uma organização que influenciou a agricultura de Bali por séculos, mas que agora estava à beira do colapso.

Antes de sua chegada, Bali já havia fascinado outros viajantes. Um deles, o naturalista britânico Alfred Russel Wallace, visitou a região em 1856 e ficou impressionado com os campos de arroz. Ele descreveu a paisagem, onde várias áreas eram irrigadas de maneira engenhosa.

Wallace notou que a irrigação balinesa permitia o cultivo mesmo na estação seca, sendo uma prova da eficiência do sistema. Ele contrasta o verde vibrante das terras agrícolas de Bali com a aparência árida de outras ilhas durante a seca. Sua estadia, embora curta, ajudou a lançar luz sobre a singularidade dos arrozais da ilha.

Mais de um século depois, o antropólogo J. Stephen Lansing chegou a Bali. Sua intenção inicial era estudar a história e a religião do povo balinês. Ao viver com uma família de sacerdotes hindus, Lansing se convenceu de que queria dedicar sua vida à antropologia. Em 1974, ele retornou para investigar os templos da ilha e descobrir mais sobre a cultura local.

Durante seu trabalho, Lansing percebeu que as conversas com os agricultores frequentemente se afastavam das tradições religiosas e giravam em torno da produção de arroz e problemas de irrigação. Os agricultores se mostravam insatisfeitos com as mudanças provocadas pelas novas técnicas agrícolas e sua relação com os templos.

Lansing logo percebeu a ligação entre os templos de água e o sistema de irrigação tradicional chamado subak, formado por associações de agricultores. Essas associações se reuniam regularmente para discutir questões de interesse comum, principalmente a divisão justa da água.

Essa conexão revelava como a irrigação e a espiritualidade estavam entrelaçadas. No entanto, com a mudança de técnicas de cultivo, as dinâmicas começaram a se fragmentar. O governo, ao distribuir modelos de cultivo, incentivava uma abordagem mais individualista, o que desapegava os agricultores de suas tradições coletivas.

Surpreendentemente, a nova ênfase em produtividade teve consequências negativas. Pestes começaram a infestar as lavouras, e o uso de pesticidas aumentou. O impacto ambiental foi significativo, afetando o ecossistema costeiro e prejudicando a pesca e o turismo.

A agricultura já respeitava a harmonia do ecossistema local que mantinha um equilíbrio com as águas necessárias para o cultivo. Agora, os agricultores enfrentavam escassez hídrica, algo sem precedentes.

Lansing continuou suas pesquisas e se uniu a um grupo de cientistas para entender profundamente como o sistema tradicional havia funcionado e quais eram suas bases. Os estudos revelaram que os subaks promoviam uma cooperação inegável entre os agricultores. Quando se plantava em conjunto, a presença de pragas diminuía dramaticamente.

A dinâmica do uso de água também se tornava uma questão importante. Ao sincronizar os ciclos de plantação, as comunidades se protegiam de pragas, mas isso também apresentava uma demanda intensa pelos recursos hídricos.

A equipe de Lansing decidiu aplicar modelos de simulação por computador para entender como as práticas tradicionais de irrigação funcionavam em conjunto. Os resultados mostraram que os subaks operavam de maneira sinérgica, otimizando os recursos disponíveis.

O modelo desenvolvido pela equipe, chamado BaliMod, conseguiu capturar as relações complexas que influenciavam a produção de arroz, demonstrando que as práticas cooperativas entre os agricultores eram eficazes e sustentáveis.

Durante uma apresentação do modelo a autoridades balinesas, ficou claro que não era mais necessário um controle centralizado para gerenciar a irrigação. Os próprios agricultores, através de sistemas tradicionais, já se organizavam de maneira eficiente.

Mais tarde, o papel dos templos de água na regulação do uso da água e na realização das práticas agrícolas foi reestabelecido. Assim, os agricultores puderam voltar a sincronizar seus plantios, o que ajudou a restaurar a produção e reduzir a necessidade de pesticidas.

Embora os desafios continuassem, com a urbanização e outras pressões sociais, o reconhecimento de que o sistema de subak era sustentável provou que a abordagem tradicional possuía uma sabedoria inata.

Por fim, a pesquisa de Lansing e sua equipe ampliou a compreensão sobre sistemas complexos de irrigação. Eles não apenas resgataram práticas agrícolas que foram bem-sucedidas por séculos, mas também preservaram a cultura e a identidade da comunidade balinesa.

O valor das práticas tradicionais de irrigação em Bali se tornou reconhecido internacionalmente em 2012, quando a UNESCO incluiu o sistema de subak na lista de Patrimônio Mundial. Essa conquista destacou a harmonia entre os humanos, a natureza e a espiritualidade, confirmando que o conhecimento passado ainda possui um papel vital nas práticas contemporâneas.